Friday, March 31, 2006
CANTAR A REVOLUÇÃO, COM AS SUAS INOLVIDÁVEIS VIRTUDES E OS SEUS DESNECESSÁRIOS DESVARIOS...
(uma espécie de prelúdio, romanticamente seleccionado pelo autor deste blogue...)
Vinha do tempo da minha infância a fábula em que os homens falavam. Agora as suas vozes estavam sepultadas num silêncio que tinha o nome ciciado de fascismo.
Minha mãe dizia: «Quando fores grande haverá um país...». E o país era onde estava a minha idade. E a minha idade era eu achar-me com toda a força dos ossos no centro da minha liberdade.
Dizendo-me isto, minha mãe pôs-me na voz luminosos objectos para espantar morcegos. Cantei quanto podiam meus pulmões carregar vendavais para sacudir as dormideiras dos tiranos. E onde as horas mordidas pelas algemas foram acre crescimento para a liberdade iluminaram-se as terras do sepulcro e era Abril e a fábula fez-se dia. Numa rubra fraternidade de cravos os homens saudaram a Revolução. Em golfadas de ouro cantei a liberdade.
NATÁLIA CORREIA
Thursday, March 30, 2006
A POESIA DO PÃO QUE A REVOLUÇÃO AMANHOU
(O PÃO É A MULHER E O PÃO)
1
Como pão caseiro. Nada de folclore barato. Como apenas pão feito com mãos. Não de operária neste caso. De mulher caseira. De mulher com bigodes vagos despontando. De mulher de mãos ásperas ainda capazes do amor todavia. De mulher que eu amarei como o pão que devoro com vago sabor a vinagre. De mulher que pega na pá de madeira ressequida e deita no forno em massa os meus testículos liquefeitos em ternura e farinha. Apaixonado por ela até ao fim dos séculos.
2
Pão inspirador. Farinha dura. Eu Pavese tu como sonhador de moinhos pressentidos no limiar de tudo. De sexos e moinhos. Pois morder o pão é morder o moinho o sexo o mar a distância. Talvez o meu inevitável suicídio.
3
Comendo este pão sinto-me outro. Penso a sério na revolução sem farinha de arroz nem remorsos parvos.
É preciso que as forças populares se alimentem de trigo e vinho puros. Assim sairá saudável o rebento.
4
É claro que depois do dia tenho à frente muitos livros sobre a revolução a poesia o amor a metafísica. É claro que bebo vinho. É claro que escuto Chopin e Bach. E o Jazz. É claro que penso em ti Quintela meu amigo distante. É claro que penso na mulher. A mulher. É claro que beijo lambo em sonho a mulher. Dos pés ao sexo. Do sexo aos cabelos. É claro que trinco o pão da noite. É claro que vou sair de casa e aspirar o ar puro que vem directamente das flores fechadas à espera. Trincando o pão da noite.
5
Pão de trigo original mãos sóbrias de uma qualquer camponesa explorada e mulher até ao útero. Até no útero.
Qualquer coisa de criança e verdade onde me instalo devorando. Devorando e sentindo este gosto a sons de sol e blusa azul clara de infância como o papel sobre a carpete agora. Como a noite constante de pureza e redenção. Amante procurada até ao limite. Amante perseguida nua efémera possuída para sempre. Amante até ao infinito à loucura de entender. Pão de trigo. Noite evidente. Flor. Lápis sobre a carpete. Vinho claro. Livro sobre os joelhos. Amor nos nervos à espera do dia final da revelação. Da revolução. Pão. De trigo. Com vinagre e um vago aspecto de corpo infantl. Pão meu amor.
LEVI CONDINHO
Wednesday, March 29, 2006
A NOÇÃO POÉTICA DE QUE SE APROXIMAVA A HORA DA VERDADE
Adoptou a pose do Anjo e disse: «Vai nascer.
Os seus braços terão a forma do círculo, e cada um
dos seus dez lábios anunciará a última madrugada.»
Depois, vencido pelo sono e pelo álcool, deixou-se cair
na cadeira. Entretanto, a Europa acordava para um novo
império espiritual. Vencidas as épocas de guerra
e de mediocridade, os artistas e os filósofos
juntavam-se em torno de novas escolas de estética
e política.
Não os acompanhou. Deambulava pelos velhos bares
junto ao cais, e em breve a velhice e o vício
o impediram de tomar consciência do seu próprio
estado. Então, tudo o que fazia era desenhar,
em grandes folhas de papel sujo, imagens obscenas
que o atormentavam. E nesse exercício consumiu
os seus últimos dias. Agora, poucos se lembrarão
ainda de que, numa noite de vinho e regozijo,
riram à sua custa - vendo-o levantar-se a custo,
murmurar de braços abertos uma imperceptível frase,
e regressar depois a um obstinado silêncio
que só a morte quebraria.
NUNO JÚDICE
Tuesday, March 28, 2006
OS SURREALISTAS DIZEM DE SUA JUSTIÇA QUANTO À REFORMA VEIGA SIMÃO!
Num pequeno país atrasado e pobre o Primeiro-Ministro preocupava-se muito com a ignorância do seu povo.
A percentagem de iletrados era tal que não se descortinava maneira de arrancar do estado de subdesenvolvimento para a fase industrial a que o país necessitava chegar.
O Primeiro-Ministro reuniu os melhores pedagogos do país que elaboraram um pequeno livro de bolso, a que chamaram "Cartilha Paternal", onde se resumia em frases simples toda a Ciência existente.
A "Cartilha Paternal" foi distribuida gratuitamente a todo o Povo, o qual lhe deu a serventia que estava habituado a dar a todo o papel, liso ou impresso.
Moral: a instrução não custa um tostão...
PEDRO OOM
Monday, March 27, 2006
O AMOR POETIZADO DE UM MODO QUE A COMISSÃO DE CENSURA NÃO GOSTOU E PROIBIU!
Assim... meu amor
penetra o tempo
as ancas devagar
as pernas lentas
o charco dos teus
olhos
e a laranja a palpitar dentro
do meu ventre
Assim... meu amor
penetra o tempo
a boca devagar
os dedos lentos
a raiva do punhal que enterras
no sol pastoso
do meu ventre
Assim... meu amor
penetra o tempo
os rins devagar
o espasmo lento
MARIA TERESA HORTA
Saturday, March 25, 2006
UMA VOZ POÉTICA CRUELMENTE REPRIMIDA PELO FASCISMO DOS COSTUMES
Sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levando-te nos seus braços
que atravessam agora o último glaciar da terra
O meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos: condenado à morte!
os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito que existe nele uma árvore miraculada
tenho um pé que já deu a volta ao mundo
e a família na rua
um é loiro
outro é moreno
e nunca se encontrarão
conheço a tua voz como os meus dedos
(antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa)
tenho um sol sobre a pleura
e toda a água do mar à minha espera
quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano
sou, por fora de mim, a minha gabardina
e eu o pico do Everest
posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita
e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca
porque tu és o dia porque tu és
a terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola
do rei morto, do vento e da primavera
Quanto ao de toda a gente - tenho visto qualquer coisa
Viagens a Paris - já se arranjaram algumas
Enlaces e divórcios de ocasião - não foram poucos
Conversas com meteoros internacionais - também já por cá passaram
Eu sou, no sentido mais enérgico da palavra
uma carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive as mulheres que assombrei as ruas por onde passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma só história
de sentido ainda oculto
magnífica irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca
como uma linha férrea ultrajada pelo tempo
é por isso que eu trago um certo peso extinto nas costas
a servir de combustível
e é por isso que eu acho que as paisagens ainda hão-de vir a ser escrupulosamente electrocutadas vivas
para não termos de atirá-las semi-mortas à linha
E para dizer-te tudo
dir-te-ei que aos meus vinte e cinco anos de existência solar estou em franca ascensão para ti O Magnífico
na cama no espaço duma pedra em Lisboa-Os-Sustos
e que o homem-expedição de que não há notícias nos jornais nem lágrimas à porta das famílias
sou eu bem sou eu partido de manhã encontrado perdido entre lagos de incêndios e o teu retrato grande!
MÁRIO CESARINY
UMA LIBERDADE POÉTICA QUE NUNCA PERDEU A ESPERANÇA
Ela tem os olhos sangrentos e serenos. São os seus
olhos de sangue, de ondas de sangue em movimento.
A sua boca cerra-se num silêncio de fogo, num silêncio
terrível como se temesse desencadear, abrindo-a, a
tempestade dos mundos, a hecatombe redentora. É a própria
boca da vontade, do amor que não perdoa. A vingança
nela tem outro nome: a justiça. Ela é todo o passado,
todo o presente e todo o futuro.
ANTÓNIO RAMOS ROSA
Friday, March 24, 2006
ELEGIA PARA UM HERÓI REVOLUCIONÁRIO QUE TAMBÉM FOI ÍCONE POP
Atado ao silêncio, o coração ainda
pesado de amor, jazes de perfil,
escutando, por assim dizer, as águas
negras da nossa aflição.
Pálidas vozes procuram-te na bruma;
de prado em prado procuram
o potro mais livre, a palmeira
mais alta sobre o lago, o barco talvez
ou o mel entornado da nossa alegria.
Olhos apertados pelo medo
aguardam na noite o sol do meio-dia,
a face viva do sol onde cresces,
onde te confundes com os ramos
de sangue do verão ou o rumor
dos pés brancos da chuva nas areias.
A palavra, como tu dizias, chega
húmida dos bosques: temos que semeá-la;
chega húmida da terra: temos que defendê-la;
chega com as andorinhas
que a beberam sílaba a sílaba na tua boca.
Cada palavra tua é um homem de pé;
cada palavra tua
faz do orvalho uma faca,
faz do ódio um vinho inocente
para bebermos contigo
no coração em redor do fogo.
EUGÉNIO DE ANDRADE
Thursday, March 23, 2006
A ESPERANÇA NUM PAÍS DIFERENTE, NA POESIA DE UM JOVEM ALCOBACENSE QUE PROVAVELMENTE NÃO SONHAVA AINDA COM O SEU FUTURO POLÍTICO...
E o nosso país não terá paredes. Não terá paredes
nem telhados. Nada a cobrir a nossa viagem constante
ao dia virgem. Nada a frustrar
a íntima incursão.
As gargantas roucas de todos os futuros novembros
irão adormecer na fonte perene da nossa dádiva.
Na boca dos homens cativos ficará o nome do Alberto Costa
como uma toada exausta. E, clandestinos,
chegaremos à última passagem.
Lentamente esqueceremos as outras ilhas, lentamente
ergueremos na ilha a nossa tenda.
Ó bruscamente fendamos o dia virgem
como na ilha crescem as flores silvestres.
ALBERTO COSTA
Tuesday, March 21, 2006
UM POEMA DA GUERRA COLONIAL, EM NOME MUITO PRÓPRIO
Mas não puxei atrás a culatra,
não limpei o óleo do cano,
dizem que a guerra mata: a minha
desfez-me logo à chegada.
Não houve pois cercos, balas
que demovessem este forçado.
Viram-no à mesa com grandes livros,
com grandes copos, grandes mãos aterradas.
Viram-no mijar à noite nas tábuas
ou nas poucas ervas meio rapadas.
Olhar os morros, como se entendesse
o seu torpor de terra plácida.
Folheando uns papéis que sobraram
lembra-se agora de haver muito frio.
Dizem que a guerra passa: esta minha
passou-me para os ossos e não sai.
FERNANDO ASSIS PACHECO
Sunday, March 19, 2006
A GUERRA COLONIAL, EM DISCURSO POÉTICO INDIRECTO...
Cada manhã
recebemos no telégrafo o pão que nos impõem
o que em agonia mastigamos vigiando
a dolorosa digestão: passará
nas tripas?
Leveda negro este pão da morte
a que não escaparemos
sem destruir esse forno de sombras
onde coze
a incurável ferida que rasgará as entranhas da terra.
Que outra coisa comer se é este o pão
que nos fere a garganta a cada fome
onde quer que estejamos?
O tempo morde-nos os ossos. A tenaz
aperta-nos a voz sob os detritos.
Que casulo protege da farinha
assassina? Saiamos para a luz. Façamos
de toda a pedra bala
antes que o relâmpago irrompa e a música
seja o leve tombar da poeira radioactiva.
EGITO GONÇALVES
Saturday, March 18, 2006
UM POEMA SOBRE A REPRESSÃO POLICIAL, ENTÃO SEMPRE PRESENTE...
Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se demais nestes tempos (inclusivé cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.
É pelo hálito que te conheço no entanto
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se demais são tempos de poucas palavras.
Falo contigo demais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis por que todos temos a perder e por que é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.
MANUEL ANTÓNIO PINA
Friday, March 17, 2006
MAIS UM BOCADINHO DE PRÉ-HISTÒRIA DA CHAMADA REVOLUÇÃO DOS CRAVOS
28 de Março de 1974- Sem o saber ainda, Marcello Caetano apresenta a sua última Conversa em Família, na televisão e na rádio.
24 de Abril de 1974- Transcrição de parte de um editorial publicado na edição desse dia do Diário de Notícias: "Quando menos se espera, certa imprensa estrangeira avoluma acontecimentos e empresta-lhes significado e importância que não têm, imagina desenlaces, como se o fim do regime estivesse à vista"...
No Cinema Condes, em Lisboa, está em cartaz o filme O Esquadrão Indomável...
Em Hollywood, o grande vencedor dos óscares desse ano é o filme A Golpada, de George Roy Hill, com Paul Newman e Robert Redford...
25 de Abril de 1974- O MFA conduz com pleno sucesso o golpe de Estado que preparara, pondo fim ao regime ditatorial que governara Portugal durante 48 anos.
Thursday, March 16, 2006
UM SONETO SOBRE UM PAÍS EM QUE ATÉ A COCA COLA ERA PROIBIDA...
Perfilados de medo agradecemos
o medo que nos leva da loucura
decisão e coragem valem menos
e vida sem viver é mais segura
Aventureiros já sem aventura
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não somos, do que não seremos
Perfilados de medo, sem mais voz
o coração nos dentes oprimidos
os loucos, os fantasmas, somos nós
Rebanho pelo medo perseguido
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido
ALEXANDRE O'NEIL
Sunday, March 12, 2006
UMA REDUZIDA PRÉ-HISTÓRIA DA REVOLUÇÃO DOS CRAVOS, SEJA LÁ ISSO O QUE FOR!
9 de Janeiro de 1973- Doze funcionários públicos são compulsivamente demitidos, sob a acusação de terem estado presentes, em 30 de Dezembro, numa vigília na Capela da Rato. Alberto Neto, padre responsável por aquela capela, é também afastado daquele cargo pelo Patriarcado de Lisboa.
20 de Janeiro de 1973- Amilcar Cabral, principal dirigente do PAIGC, é assassinado em Conakry.
24 de Janeiro de 1973- Sá Carneiro e Miller Guerra renunciam aos seus mandatos como deputados na Assembleia Nacional.
9 de Março de 1973- As autodenominadas Brigadas Revolucionárias fazem explodir bombas no DRM de Lisboa e nos Serviços Mecanográficos do Exército.
21 de Março de 1973- Os deputados Casal Ribeiro e Reboredo e Silva pedem, na Assembleia Nacional, a pena de morte para os implicados naquelas explosões.
4 de Abril de 1973- Em Aveiro, o III Congresso da Oposição Democrática coloca como seus principais objectivos o fim da guerra colonial e a conquista das liberdades democráticas.
1 de Maio de 1973- As Brigadas Revolucionárias levam a efeito um atentado contra o Ministério das Corporações. No mesmo dia, a Pide/DGS informa que desde o início do ano foram presos 87 oposicionistas, dos quais 47 eram estudantes universitários.
6 de Maio de 1973- O I congresso da Acção Nacional Popular, em Tomar, reafirma a política de Marcello Caetano e do seu governo.
14 de Maio de 1973- A Faculdade de Letras de Lisboa é encerrada, após incidentes entre estudantes e "gorilas".
10 de Julho de 1973- O jornal britânico The Thimes publica um depoimento do padre Adrian Hastings sobre o massacre de 400 civis pelo exército português em Wiriyamu (Moçambique), ocorrido em Dezembro.
15 de Julho de 1973- Iniciam-se em Londres grandes manifestações contra a visita que Marcello Caetano ali principiará no dia seguinte.
18 de Julho de 1973- A Dinamarca propõe um inquérito internacional aos acontecimentos ocorridos em Wiriyamu e a Holanda propõe, na NATO, um embargo de armas a Portugal.
30 de Julho de 1973- Assinala-se o início de uma crise nas Forças Armadas portuguesas, devido à publicação do D.L. 353/73, que permitia aos milicianos ultrapassar os oficiais da Academia. Essa crise será o embrião do chamado "movimento dos capitães"
7 de Agosto de 1973- ONU condena política ultramarina de Portugal.
9 de Setembro de 1973- Reunidos em Évora, 136 militares pedem a revogação do D.L. 353/73.
24 de Setembro de 1973- PAIGC proclama, em Madina do Boé, a independência da Guiné-Bissau.
28 de Outubro de 1973- Eleições para a Assembleia Nacional, das quais a CDE, que personaliza a oposição ao regime, desiste antes da votação.
24 de Novembro de 1973- Numa reunião clandestina do "movimento dos capitães" em S. João do Estoril é pela primeira vez colocada a necessidade de fazer um golpe de Estado.
26 de Novembro de 1973- A ONU reconhece a independência da República da Guiné-Bissau.
1 de Dezembro de 1973- Clandestinamente reunido em Óbidos, o "movimento dos capitães" elege a sua comissão coordenadora, escolhendo Vasco Lourenço, Otelo Saraiva de Carvalho e Vítor Alves para dirigir o golpe de Estado em preparação.
3 de Dezembro de 1973- O governo de Marcello Caetano manda encerrar compulsivamente várias associações de estudantes.
17 de Dezembro de 1973- Numa aula do Instituto de Altos Estudos Militares, o major Carlos Fabião denuncia a preparação de um golpe de Estado liderado por Kaúlza de Arriaga.
10 de Janeiro de 1974- Marcello Caetano rejeita uma solução federativa para o problema colonial português.
15 de Janeiro de 1974- O General António Spínola declara, na sua tomada de posse como Vice-Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, que aquela instituição não é "uma guarda pretoriana do poder político".
31 de Janeiro de 1974- Inicia-se uma vaga de greves operárias, que se estenderá pelo mês seguinte. Trabalhadores da Fábrica de Limas Tomé Feteira, em Vieira de Leiria entram também em greve. A turma 35, da Escola Comercial e Industrial de Leiria, entra também em greve, protestando contra problemas no ensino e solidarizando-se com aquela vaga de greves operárias. São suspensos 30 alunos do Instituto Superior Técnico de Lisboa.
22 de Fevereiro de 1974- É publicado o livro "Portugal e o Futuro", do General António Spínola, que nele toma a coragem de defender que a solução do problema colonial português deverá ser política e nunca militar.
5 de Março de 1974- O "movimento dos capitães" reúne clandestinamente em Cascais, criando o Movimento das Forças Armadas e decidindo tomar contacto com os partidos políticos clandestinos.
14 de Março de 1974- Os generais Costa Gomes e António Spínola são exonerados da chefia das Forças Armadas portuguesas.
16 de Março de 1974- Forças militares do quartel de Caldas da Rainha iniciam um levantamento militar para depor o governo de Marcello Caetano. Essa tentativa de golpe de Estado é neutralizada antes de entrar em Lisboa.
Saturday, March 11, 2006
NAS FALDAS DA SERRA COMEMORA 25 DE ABRIL POR CONTA PRÓPRIA
Sendo assim, a finalidade principal deste "post" é informar os prezados visitantes deste blogue de que o Nas Faldas da Serra decidiu comemorar por sua conta e risco o 32º Aniversário do 25 de Abril. Essa comemoração iniciar-se-á na tarde da próxima quinta- feira, 16 de Março, dia em que passam precisamente 32 anos sobre o chamado Golpe das Caldas, epíteto pelo qual ficou conhecido o levantamento militar nessa data efectuado por tropas originárias do quartel de Caldas da Rainha. Esse levantamento acabaria por ser neutralizado, mas deixou no ar a esperança que acabaria por se confirmar precisamente um mês e nove dias depois, como (quase) todos sabemos...
E perguntarão agora os nossos prezados visitantes: - E em que é que consistirão essas comemorações promovidas pelo Nas Faldas da Serra? Pois é. Essas comemorações consistirão na publicação de poemas, de autoria de vários escritores portugueses (maioritariamente escritos e publicados antes da Revolução dos Cravos) , ao longo de vários dias, culminando com a publicação, a partir de 1 de Abril, neste mesmíssimo blogue, da edição "ne varietur" do conto histórico Uma Noite de Insónia, de autoria de José Alberto Vasco (eu mesmo). Esse meu conto histórico foi inicialmente publicado, com razoável sucesso, em exclusivo pelo Jornal Digital Tinta Fresca, entre 25 de Abril e 31 de Maio de 2002, continuando até agora a sua publicação única e exclusivamente levada a cabo pela via digital. A edição "ne varietur" que agora será publicada pelo Nas Faldas da Serra regista algumas alterações em relação à anterior, nomeadamente ao nível da sua rítmica, da sua pontuação e do seu próprio final...
E termino esta espécie de conferência de imprensa cibernáutica deixando aqui publicado o primeiro sinal simbólico dessas Comemorações do 32º Aniversário do 25 de Abril no blogue Nas Faldas da Serra. Esse sinal é a publicação de um poema de autoria daquele que é, indubitavelmente, o maior símbolo artístico daquilo a que aqui tomo a liberdade (já pouco original) de chamar o "Espírito de Abril". É um poema que fala de Liberdade, e essa é, sem dúvida, a maior das conquistas que o 25 de Abril nos proporcionou, para o bem e para o mal... Esse poema chama-se A Presença das Formigas, e apesar de ter sido escrito antes do 25 de Abril apenas foi publicado depois, precisamente no primeiro disco editado pelo seu autor, o inesquecível José Afonso, depois da Revolução de Abril: Coro dos Tribunais, que foi gravado em Londres, nos Estúdios Pye, entre 3o de Novembro e 8 de Dezembro de 1974. Aqui fica, para que conste:
A PRESENÇA DAS FORMIGAS
A presença das formigas
Nesta oficina caseira
A regra de três composta
Às tantas da madrugada
Maria que eu tanto prezo
E por modéstia me ama
A longa noite de insónia
Às voltas na mesma cama
Liberdade liberdade
Quem disse que era mentira
Quero-te mais do que à morte
Quero-te mais do que à vida
José Afonso
Wednesday, March 01, 2006
QUANDO É QUE ALCOBAÇA DEIXARÁ DE CONTINUAR A PERDER MARCAS DE REFERÊNCIA?
Passadas quase duas semanas sobre esse acontecimento, ainda não se extinguiu a memória da conferência do historiador António Valério Maduro, nos Moleanos, no Lagar do Barreirão. O principal objecto de referência dessa bem sucedida comunicação foi A Produção do Azeite nas Terras de Alcobaça, também título de um notável livro daquele historiador, o tal livro cuja imensa maioria de exemplares continua presa, à má fila, algures num qualquer armazém do suposto Museu do Oeste e da realíssima Associação de Municípios do mesmíssimo Oeste... Aquela conferência contou com um público muito atento e interessado, de entre o qual tomo a liberdade de referir alguns espectadores que pareciam mesmo ter sido escolhidos a dedo para ali estar. Efectivamente, o antropólogo Carlos Batista, o Presidente do Projecto Lieder Oeste José Coutinho ou o Director do Mosteiro de Alcobaça Rui Rasquilho, foram não só atentos espectadores como perspicazes comentadores no período final de discussão e debate, período esse que contou também com outras motivadoras intervenções, a mais importante das quais se deveu a José António Canha, o alcobacense recentemente nomeado Presidente do Instituto de Desenvolvimento Rural e Hidráulica, cuja intervenção deixou mesmo no ar alguma esperança no que respeita a uma sua possível intervenção no desbloqueamento da edição do livro de António Valério Maduro...
Todavia, José António Canha evidenciou outro importante assunto numa das suas intervenções dessa tarde, referindo que o azeite produzido no concelho de Alcobaça poderá estar em vias de perder a sua denominação de origem, devido a ter já sido entregue uma proposta nesse sentido, feita pela Associação de Agricultores do Ribatejo à APRODER, entidade que presentemente certifica o azeite desta região, actualmente integrado na Denominação de Ordem Protegida de Azeites do Ribatejo. José António Canha sublinhou então que este problema não afectará apenas questões inerentes à qualidade e ao valor económico do azeite do concelho de Alcobaça, prejudicando inúmeros produtores das freguesias de S. Vicente de Aljubarrota e Turquel, afectando também o valor dos terrenos agrícolas dessas zonas, que, caso aquela proposta vingue, sofrerão enormes decréscimos. E recordamos que tudo isso poderá suceder numa região como a nossa, que já foi das mais importantes, a nível nacional, em termos de produção de azeite...
Aproveito ainda para relembrar que caso Alcobaça perca mais esta sua marca de referência, essa perda se sucederá a muitas outras que nos últimos anos se têm infelizmente sucedido, caso, por exemplo, do vinho desta região e de muitas das suas qualidades de fruta, de entre as quais apenas parece restar de pé a maçã deste concelho. Isto numa altura em que a chamada gripe das aves se poderá avolumar no horizonte como feroz inimigo da fama que resta do nosso frango na púcara e os chamados queijinhos de Alcobaça se deixam cada vez mais de ver nas montras da nossa cidade, tendo-se, segundo parece, mudado de armas e bagagens para Lisboa... Isto para não falar da história, cada vez mais fantasmagórica, da emancipação do porco malhado como marca de referência do concelho de Alcobaça... Como notável marca de referência de Alcobaça isolam-se cada vez mais os mediáticos The Gift, numa altura em que a nossa edilidade parece não se interessar mesmo nada por assuntos desta estirpe. Curiosamente, apenas um dos seus actuais vereadores, Rogério Raimundo, esteve presente naquela conferência de António Valério Maduro, dado que de entre os seus actuais colegas de vereação não se notou qualquer presença neste acontecimento promovido pelo Rancho Folclórico dos Moleanos. Embora dois deles tivessem prometido estar presentes...
Tuesday, February 28, 2006
ANOS 1960 PROMETEM REGRESSAR EM FORÇA NA BOLÍVIA!
Uma das questões mais caricatas desta história é o facto de aquele ministro boliviano basear as suas teses e afirmações num estudo publicado durante a década de 1960 na Universidade de Harvard. Em plena década de fruição hippie, esse estudo apregoava, entre outras coisas, que enquanto um copo de leite tem apenas 300 miligramas de cálcio, uma simples folha de coca com 98 gramas proporciona 1540 de cálcio! Contudo, e segundo a oposição boliviana, aquele tão pouco inspirado ministro ter-se-á esquecido do simples facto de essa alteração adormecer completamente os desprotegidos alunos, em vez de os manter acordados e com as suas funções cerebrais em pleno, além de causar graves problemas de anemia... Curioso é também referir que a investigação harvardiana que sustenta essa ideia de David Choquehuanca foi pouquíssimo tempo depois pura e simplesmente renegada por aquela universidade norte-americana, iniciando um processo disciplinar cuja conclusão determinou também o afastamento do seu autor do seu corpo docente. Esse autor era, nem mais nem menos, o psicólogo Timothy Francis Lear, cujas experiências com drogas psicadélicas lhe valeram, não só uma desmedida admiração pelo movimento hippie como o próprio epíteto de "o apóstolo da droga". Timothy Lear continuou a sua vida encarnando uma espécie de objecto decorativo de festivais rock e performances hippies de gosto duvidoso, tendo mesmo merecido a dedicatória de uma melancólica canção dos deslavados Moody Blues, sob o título Legend of a Mind...
Todavia, este caso boliviano parece ter ainda mais gravidade do que aquilo que à primeira vista poderá parecer, dado que, este posicionamento do seu ministro se declara como uma espécie de primeiro passo no caminho de o actual governo da Bolívia pretender despenalizar completamente o consumo da coca, tese também apoiada pela dúbia alusão de que esse consumo permite lidar melhor com a fadiga e até a própria fome... Passando a questão para o nosso país, numa época em que, mais tarde ou mais cedo, será politicamente colocada a hipótese de despenalizar o consumo das chamadas drogas leves, recordo que estas coisas não se devem discutir com o ânimo leve ou o descarado oportunismo daquele ministro boliviano, necessitando, acima de tudo que os problemas sejam mesmo discutidos, enfrentados e resolvidos, atitude a que os portugueses estão politicamente pouco ou nada habituados... E se o rock tem sido desde sempre muito naturalmente aliado a estas questões, recordo aqui a desassombrada entrevista que Zé Pedro, um dos guitarristas dos Xutos & Pontapés, concedeu em Junho de 2004 ao nº1 da revista Cânhamo, na qual esclarecedoramente retrata um mundo em que apenas a inteligência permite a recusa e a opção por vias efectivamente mais saudáveis...
Friday, February 24, 2006
XIV FEIRA DO LIVRO DE ALCOBAÇA NÃO ESTÁ COM MEIAS MEDIDAS E DESPEDE-SE COM UM ENSAIO AO VIVO DOS RED LINE!
Os Red Line foram formados já este ano e além de festas particulares e de uma actuação nas Termas da Piedade esta será mesmo a sua primeira grande prova de fogo! Resta-nos informar que os Red Line são constituidos pelo João (vocalista), pelo Filipe Damião e pelo Luis Ramos (guitarristas), pelo José Vasco (baixista) e pelo Diogo Freire (baterista), ficando aqui a dica de que os dois últimos vêm de casas muito exigentes em termos musicais, dado serem, respectivamente, filhos do musicógrafo José Alberto Vasco (também criador deste blogue...) e do professor Aníbal Freire (antigo campeão mundial de acordeão).
Já agora, fica também aqui a informação de que este ensaio ao vivo vai ser tão completo e integral que até vai incluir a montagem e a desmontagem dos instrumentos e da aparelhagem de som. Nem os Rolling Stones fariam melhor!...
Tuesday, February 21, 2006
QUANDO É QUE ALCOBAÇA DEIXARÁ DE TER MAIS OLHOS QUE BARRIGA EM MATÉRIA DE MUSEUS?
Entretanto, e tendo chegado ao fim o prazo acordado com a edilidade sintrense, Joe Berardo começou a pensar em novo local para instalar e conservar a sua colecção, tentando, acima de tudo, que essa modificação proporcionasse um local mais adequado para a exposição das suas inúmeras e valiosa peças. Isso significou que outros países se interessassem em atrair a Colecção Berardo para o seu território e que o governo português tivesse tentado meter mãos à obra no mesmo sentido... Todavia, essas negociações nem sempre têm decorrido de forma edificante e, segundo parece, o Estado português tem mesmo metido os pés pelas mãos, e vice-versa, o que já começa a irritar um Joe Berardo que tem plena consciência do valor da sua colecção de arte (foi ele que a seleccionou e pagou, não foi?). Entretanto, a pacoviada começou a assentar arraiais nesta questão, e, segundo tem constado, houve outras edilidades que aparentaram começar a interessar-se em atrair aquela colecção para os seus concelhos. Caldas da Rainha e Alcobaça são dois dos casos conhecidos, e o que mais nos interessa é precisamente o último, ainda para mais quando tem sido avançado nalguma imprensa que o Dr Gonçalves Sapinho e os seus pares haviam tido a luminosa ideia de a tentar instalar nas secções ainda desocupadas da Ala Norte do Mosteiro de Alcobaça. E a verdade é que este posicionamento do autarca alcobacense se mostra básica e completamente desadequado e desajustado, não só pela diferença etária e estilística entre a maioria daquelas obras (século XX) e o próprio Mosteiro (século XIII), mas essencialmente pelo importante e essencial facto de nenhuma sala daquele edifício poder proporcionar as condições de espaço, temperatura e humidade necessárias à sua boa conservação e manutenção. E aqui relembro que a Colecção Berardo inclui arte moderna, azulejaria, posters, minerais e esculturas africanas, além de uma imensidão de obras que abrangem a instalação contemporânea e que nada têm a ver com a ambiência de um mosteiro histórica e fisicamente muito mais adequado para outros género de arte (gótico, barroco, etc). É claro que não seria aconselhável e viável que o Mosteiro de Alcobaça pudesse enveredar por tipologias radicalmente tão diferentes da sua e que, por esse mundo fora, nos mostram claros exemplos dessa desadequação do nosso mosteiro: a pintura A Closer Grand Canyon, de David Hockney, exposta no Centre Georges Pompidou, em Paris, tem 3,30 metros de altura e 7,44 de comprimento/ a escultura metálica Snake, de Richard Serra, exposta no Museo Guggenheim, de Bilbao, tem 6,82 metros de altura e 31,65 de comprimento/ o helicóptero Bell-47D1, da Bell Helicopters Inc, exposto no Moma, em New York, tem 3,02 metros de altura e 12,72 de comprimento. Se Joe Berardo optasse por peças desse dimensionamento físico e artístico onde é que elas poderiam caber no nosso Mosteiro?
Pois é. Neste caso, tal como em muitos outros, seria bom que Alcobaça deixasse de ter mais olhos que barriga e, recordando que além do próprio Mosteiro a nossa cidade não tem qualquer museu digno desse nome, em termos de inventariação, conservação e exposição, se voltasse é para o que tem dentro de si (Museu Vieira Natividade, Central Eléctrica da Fiação e Tecidos, Museu da Cidade,etc), tratanto, finalmente, de optar por uma autêntica orientação de nível museológico. Trazer para Alcobaça a Colecção Berardo só seria possível e admissível se se construisse uma infra-estrutura adequada para esse efeito (e neste caso, o modelo nacional poderá ser o Museu de Serralves) e, neste âmbito, parece-me que Alcobaça deverá ter outras prioridades e outras necessidades, aqui se recordando a urgência que a nossa cidade terá em alterar radicalmente o espaço actualmente ocupado pelo Mercoalcobaça, deitando abaixo o que agora lá está conbstruido e substituindo-o por um eficiente e adequado Pavilhão Multiusos!