Já aqui se escreveu sobre a provável e possível inclusão do Mosteiro de Alcobaça entre os sete eleitos na decorrente votação para escolha das Sete Maravilhas de Portugal. Muito se falou e escreveu sobre o assunto, com especial destaque para a blogosfera alcobacense e para a nossa edilidade, que chegou mesmo a intuir haver necessidade e interesse em promover um lobby que influenciasse a eleição do Mosteiro de Alcobaça entre essas Sete Maravilhas de Portugal. Muito se falou e escreveu, mas nada se fez, como é infelizmente habitual nesta "orgulhosa" cidade...
Vem esta introdução a propósito de alguns sinais que evidenciam que os outros candidatos a tal lugar não estão a descansar à sombra da bananeira e a ver os outros passar, promovendo já as suas candidaturas. Um desses sinais é uma votação hoje publicada no suplemento Fugas do diário Público, que divulga uma votação feita na sua redacção e a escolha dos colaboradores daquele jornal. O Mosteiro de Alcobaça não figura entre aqueles sete mais votados e é curioso assinalar que entre eles se encontram nossos vizinhos como o Castelo de Óbidos e o Mosteiro da Batalha... Será então caso para aqui perguntar: Onde pára o tal lobby de (Mosteiro de) Alcobaça?
Saturday, December 30, 2006
UM POEMA (PÓS) NATALÍCIO DE MIGUEL TORGA
HISTÓRIA ANTIGA
Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto;
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.
Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenino
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.
MIGUEL TORGA
Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto;
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.
Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenino
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.
MIGUEL TORGA
Friday, December 29, 2006
BRAD MEHLDAU, QUE ACTUARÁ EM JANEIRO NO CINE-TEATRO DE ALCOBAÇA, É A FIGURA DE CAPA DA EDIÇÃO DE JANEIRO DE 2007 DA REVISTA DOWN BEAT
Já se sabe que o notabilizado pianista de jazz Brad Mehldau actuará em Alcobaça, no Cine-Teatro, em 25 de Janeiro de 2007, naquele que certamente se afigura como o primeiro grande concerto do ano na nossa cidade. Para os alcobacenses mais interessados nestas coisas, podemos aqui adiantar que aquele notabilizado pianista norte-americano será a figura de capa da edição de Janeiro de 2007 da conceituadíssima revista de jazz norte-americana Down Beat, que no seu interior incluirá um acertadíssimo artigo de fundo sobre Brad Mehldau, de autoria de Dan Ouellette. Nesse artigo intui-se que "Brad Mehldau é o mais influente artista de jazz da sua geração", o que não deixa de ser um interessante aperitivo para o seu concerto de Alcobaça...
UM POEMA DE NATAL DE GOMES LEAL
OS REIS MAGOS
Nas torres, olhando os astros,
que viajam pelos céus,
Os Reis Magos viram rastros
do avatar de um grande Deus.
Leram em livros profundos,
que a Caldeia e Assíria têm,
que estava a descer dos mundos
um Deus a Jerusalém.
Cheios de assombro à janela,
mudos ficam os seus lábios!
De pé olhando uma estrela,
velam noites os reis sábios.
Não querem mais alimento,
nem com rainhas dormir.
Não tomam ao trono assento!
Não mais volvem a sorrir!
Somente olham, sem cessar,
a branca estrela brilhante
como o ceptro dominante
do rei que vai a reinar.
Abraçam a esposa amada.
Dão as chaves aos herdeiros.
Mandam vir seus escudeiros.
Os seus bordões de jornada.
Despejam os seus erários,
cheios de alvoroço imenso.
Carregam seus dromedários,
d'ouro, de mirra, de incenso.
Passam rios e cidades
cheias de estátuas guerreiras,
palácios, campos, herdades,
cisternas sob as palmeiras.
Seguem a luz do astro belo,
que as estradas lhes clareia,
até chegar ao castelo,
do rei que reina em Judeia.
Chegados ao rei cruel,
que de Herodes nome tem,
bradam: "O Rei de Israel
nasceu em Jerusalém?..."
Fica assombrado o Tetrarca,
Diz-lhes tal nova ignorar.
- "Mas em nome da Santa Arca,
voltai, reis, ao meu solar!"
Seus olhos ficam sombrios:
vê perdido o seu tesouro,
soldados, terras, navios,
da Judeia o ceptro de ouro!
Tomam os reis seus bordões
Levantam as suas tendas,
Carregam suas oferendas,
Demandam novas regiões.
Passam rios e cidades
cheias de estátuas guerreiras,
palácios, campos, herdades,
cisternas sob palmeiras.
Passam colinas, rebanhos,
campos de louras searas,
quando a lua faz desenhos
no chão das estradas claras.
Passam o quente areal
que a palmeira não conforta.
Eis que a estrela pára à porta
de um decrépito curral.
Descem dos seus dromedários,
cheios de pó os reis sábios.
Descarregam seus erários.
- Mas estão mudos seus lábios.
Rojam as barbas nevadas
Sobre o Deus que adormecera.
Com as mãozinhas rosadas
da Mãe nos seios de cera.
Seus olhos sentem assombros
e nadam cheios de choro.
- Rasgam seus mantos de ombros.
- Dão-lhe mirra, incenso e ouro.
Esquecem sua nação
mais seus carros de batalha.
- Seus ceptros rolam na palha!
- Seus diademas no chão!
E erguendo seus olhos graves,
perguntam então - olhando
as pombas voando em bando,
os aldeões, mais as aves.
"É este o rei dos senhores?
Tábua da Lei das rainhas?
Por archeiros - tem pastores.
Por pagens - as andorinhas."
GOMES LEAL
Nas torres, olhando os astros,
que viajam pelos céus,
Os Reis Magos viram rastros
do avatar de um grande Deus.
Leram em livros profundos,
que a Caldeia e Assíria têm,
que estava a descer dos mundos
um Deus a Jerusalém.
Cheios de assombro à janela,
mudos ficam os seus lábios!
De pé olhando uma estrela,
velam noites os reis sábios.
Não querem mais alimento,
nem com rainhas dormir.
Não tomam ao trono assento!
Não mais volvem a sorrir!
Somente olham, sem cessar,
a branca estrela brilhante
como o ceptro dominante
do rei que vai a reinar.
Abraçam a esposa amada.
Dão as chaves aos herdeiros.
Mandam vir seus escudeiros.
Os seus bordões de jornada.
Despejam os seus erários,
cheios de alvoroço imenso.
Carregam seus dromedários,
d'ouro, de mirra, de incenso.
Passam rios e cidades
cheias de estátuas guerreiras,
palácios, campos, herdades,
cisternas sob as palmeiras.
Seguem a luz do astro belo,
que as estradas lhes clareia,
até chegar ao castelo,
do rei que reina em Judeia.
Chegados ao rei cruel,
que de Herodes nome tem,
bradam: "O Rei de Israel
nasceu em Jerusalém?..."
Fica assombrado o Tetrarca,
Diz-lhes tal nova ignorar.
- "Mas em nome da Santa Arca,
voltai, reis, ao meu solar!"
Seus olhos ficam sombrios:
vê perdido o seu tesouro,
soldados, terras, navios,
da Judeia o ceptro de ouro!
Tomam os reis seus bordões
Levantam as suas tendas,
Carregam suas oferendas,
Demandam novas regiões.
Passam rios e cidades
cheias de estátuas guerreiras,
palácios, campos, herdades,
cisternas sob palmeiras.
Passam colinas, rebanhos,
campos de louras searas,
quando a lua faz desenhos
no chão das estradas claras.
Passam o quente areal
que a palmeira não conforta.
Eis que a estrela pára à porta
de um decrépito curral.
Descem dos seus dromedários,
cheios de pó os reis sábios.
Descarregam seus erários.
- Mas estão mudos seus lábios.
Rojam as barbas nevadas
Sobre o Deus que adormecera.
Com as mãozinhas rosadas
da Mãe nos seios de cera.
Seus olhos sentem assombros
e nadam cheios de choro.
- Rasgam seus mantos de ombros.
- Dão-lhe mirra, incenso e ouro.
Esquecem sua nação
mais seus carros de batalha.
- Seus ceptros rolam na palha!
- Seus diademas no chão!
E erguendo seus olhos graves,
perguntam então - olhando
as pombas voando em bando,
os aldeões, mais as aves.
"É este o rei dos senhores?
Tábua da Lei das rainhas?
Por archeiros - tem pastores.
Por pagens - as andorinhas."
GOMES LEAL
Thursday, December 28, 2006
UMA CANTIGA POPULAR DE NATAL MINHOTA
CANTIGA DOS REIS
Santos Reis, santos coroados
Vinde ver quem vos coroou
Foi a Virgem, mãe sagrada,
Quando por aqui passou.
O caminho era torto
Uma estrela vos guiou
Em cima de uma cabana
Essa estrela se pousou.
A cabana era pequena
Não cabiam todos três;
Adoraram Deus-Menino
Cada um por sua vez.
CANTIGA POPULAR DE BARCELOS
Recolhida por Luísa Miranda
Santos Reis, santos coroados
Vinde ver quem vos coroou
Foi a Virgem, mãe sagrada,
Quando por aqui passou.
O caminho era torto
Uma estrela vos guiou
Em cima de uma cabana
Essa estrela se pousou.
A cabana era pequena
Não cabiam todos três;
Adoraram Deus-Menino
Cada um por sua vez.
CANTIGA POPULAR DE BARCELOS
Recolhida por Luísa Miranda
Wednesday, December 27, 2006
UM POEMA DE NATAL DE GIL VICENTE
BRANCA ESTAIS E COLORADA
Branca estais e colorada
Virgem sagrada
Em Belém, vila de amor
da rosa nasceu a flor
Virgem sagrada!
Em Belém, vila de amor
nasceu a rosa do rosal,
Virgem sagrada!
Da rosa nasceu a flor
para nosso Salvador:
Virgem sagrada!
Nasceu a rosa do rosal,
Deus e homem natural:
Virgem sagrada!
GIL VICENTE
Branca estais e colorada
Virgem sagrada
Em Belém, vila de amor
da rosa nasceu a flor
Virgem sagrada!
Em Belém, vila de amor
nasceu a rosa do rosal,
Virgem sagrada!
Da rosa nasceu a flor
para nosso Salvador:
Virgem sagrada!
Nasceu a rosa do rosal,
Deus e homem natural:
Virgem sagrada!
GIL VICENTE
Tuesday, December 26, 2006
NATAL É SEMPRE QUE UM BLOGUE QUISER! O NAS FALDAS DA SERRA CONTINUA A PUBLICAR POESIA DE INSPIRAÇÃO NATALÍCIA ATÉ AO FINAL DO ANO...
BALADA DA MEIA-NOITE
Em fria noite de Inverno
Viu a luz o Deus-Menino,
Nesta noite de Natal,
És meu Sol e meu Destino!
És meu Sol e meu Destino
A aquecer-me na friagem,
Nesta noite de Natal,
Amanhece a tua imagem!
Amanhece a tua imagem
P'ra além da noite estrelada,
Nesta noite de Natal,
És a minha madrugada!
És a minha madrugada,
És a árvore da Vida,
Nesta noite de Natal,
Noutras vidas repartida!
Noutras vidas repartida,
Feitas carne, feitas luz,
Nesta noite de Natal,
- Novos Meninos Jesus!
FERNANDO DE PAMPLONA
Pássaro de Bruma, 1983
Em fria noite de Inverno
Viu a luz o Deus-Menino,
Nesta noite de Natal,
És meu Sol e meu Destino!
És meu Sol e meu Destino
A aquecer-me na friagem,
Nesta noite de Natal,
Amanhece a tua imagem!
Amanhece a tua imagem
P'ra além da noite estrelada,
Nesta noite de Natal,
És a minha madrugada!
És a minha madrugada,
És a árvore da Vida,
Nesta noite de Natal,
Noutras vidas repartida!
Noutras vidas repartida,
Feitas carne, feitas luz,
Nesta noite de Natal,
- Novos Meninos Jesus!
FERNANDO DE PAMPLONA
Pássaro de Bruma, 1983
NAS FALDAS DA SERRA COMEMORA HOJE O SEU 1º ANIVERSÁRIO
Pois é. Parece que começámos ontem. Todavia, já passou um ano após a publicação da nossa primeira postagem. Sendo assim, agradecemos encarecidamente a quem durante este ano nos visitou, leu, comentou e divulgou. Aproveitamos para recordar duas características que pensamos essenciais neste blogue: o Nas Faldas da Serra é exclusivamente um blogue de texto e pretende desde o seu início não ser um blogue cinzent(ã)o... Prometemos (aqui) continuar!
Monday, December 25, 2006
UM POEMA DE NATAL DE VITORINO NEMÉSIO
NATAL CHIQUE
Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na minha pressa e pouco amor.
Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.
Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado...
Só esse pobre me pareceu Cristo.
VITORINO NEMÉSIO
Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na minha pressa e pouco amor.
Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.
Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado...
Só esse pobre me pareceu Cristo.
VITORINO NEMÉSIO
Sunday, December 24, 2006
UM POEMA DE NATAL DE VINICIUS DE MORAES
POEMA DE NATAL
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais, esperaremos...
Hoje a noite é jovem, da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
VINICIUS DE MORAES
O Operário em Construção, 1975
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais, esperaremos...
Hoje a noite é jovem, da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
VINICIUS DE MORAES
O Operário em Construção, 1975
Saturday, December 23, 2006
UM POEMA DE NATAL DE FERNANDO PESSOA
NATAL...
Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
'Stou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!
FERNANDO PESSOA
Notícias Ilustrado, 30 de Dezembro de 1928
Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
'Stou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!
FERNANDO PESSOA
Notícias Ilustrado, 30 de Dezembro de 1928
Friday, December 22, 2006
UM POEMA DE NATAL DE GIUSEPPE UNGARETTI
NATAL
Não me apetece
afundar-me
num novelo
de estradas
É tanto
este cansaço
sobre os ombros
Deixai-me assim
como uma
coisa
pousada
a um
canto
e abandonada
Aqui
não se sente
senão
o bom calor
Estou
com as quatro
cabriolas
de fumo
do velho lar
GIUSEPPE UNGARETTI
Sentimento do Tempo, 1933
Não me apetece
afundar-me
num novelo
de estradas
É tanto
este cansaço
sobre os ombros
Deixai-me assim
como uma
coisa
pousada
a um
canto
e abandonada
Aqui
não se sente
senão
o bom calor
Estou
com as quatro
cabriolas
de fumo
do velho lar
GIUSEPPE UNGARETTI
Sentimento do Tempo, 1933
Thursday, December 21, 2006
UM POEMA DE NATAL DE JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE
NATAL, NATAL DE OITENTA E OITO
Um monte alto de musgo
e um atalho de areão
subindo para a noite
de dezembro.
Há sempre um pinheiro
uma grande árvore
com as raízes
e o tronco
na sombra do amor.
O lugar
onde o deus
tinha armado o seu presépio
ficava assentado
num valezinho verde de musgo e branco de
neve
e folhas mortas do inverno.
Os olhos seguiam o rio
das estrelas
e a luz fazia mistério
do claro choro daquele menino
entre vaca e burro
mulher e homem.
Contasse o segredo do coração e
haveria conversa bastante para a
voz melancólica
de um pastor
que passara a infância sem brincar
e não pudera ser alegre
nem triste.
Mas o pastor é o guarda de ovelhas,
a própria vida adentro da
floresta
o anjo, o anjo perdeu a asa no riacho
lamacento
colhendo baga vermelha de azevinho.
E o deus,
vestido de recém-nascido, lançava
lança o olhar
à voz da fria noite
e do dezembro escuro - houvesse
ou não vida de homem nele -, dá a
Roma
a razão do seu corpo
p'lo destino de nossa alma e morte.
Um monte alto de musgo
era uma sombra
era um deus
sombrio de dezembro?
JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE
O Independente, 23 de Dezembro de 1988
Um monte alto de musgo
e um atalho de areão
subindo para a noite
de dezembro.
Há sempre um pinheiro
uma grande árvore
com as raízes
e o tronco
na sombra do amor.
O lugar
onde o deus
tinha armado o seu presépio
ficava assentado
num valezinho verde de musgo e branco de
neve
e folhas mortas do inverno.
Os olhos seguiam o rio
das estrelas
e a luz fazia mistério
do claro choro daquele menino
entre vaca e burro
mulher e homem.
Contasse o segredo do coração e
haveria conversa bastante para a
voz melancólica
de um pastor
que passara a infância sem brincar
e não pudera ser alegre
nem triste.
Mas o pastor é o guarda de ovelhas,
a própria vida adentro da
floresta
o anjo, o anjo perdeu a asa no riacho
lamacento
colhendo baga vermelha de azevinho.
E o deus,
vestido de recém-nascido, lançava
lança o olhar
à voz da fria noite
e do dezembro escuro - houvesse
ou não vida de homem nele -, dá a
Roma
a razão do seu corpo
p'lo destino de nossa alma e morte.
Um monte alto de musgo
era uma sombra
era um deus
sombrio de dezembro?
JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE
O Independente, 23 de Dezembro de 1988
Wednesday, December 20, 2006
VOLUME 2 DE AS NOSSAS CANÇÕES DE NATAL E 2 DJs DO CARALH... ANIMAM FIM-DE-SEMANA NATALÍCIO NO CLINIC
Depois do êxito do ano passado era imperioso que o alcobacense Clinic voltasse este ano a apresentar o seu espectáculo As Nossas Canções de Natal. Na próxima sexta-feira, 22 de Dezembro, passarão pelo palco do Clinic 6 relevantes bandas portuguesas da área pop/rock (Mesa, Rodrigo Leão, Loto, Norton, Cindy Kat e The Gift), todas elas apostadas em fazer daquela noite nataliciamente pop uma noite inesquecível. 24 horas depois, na noite de sábado, 23 de Dezembro, a prenda de Natal que o Clinic oferece à sua sortuda clientela será um duplo Dj Set, cujas figuras de proa serão 2 DJs do Caralh...: o (Gato Fedorento) Zé Diogo Quintela e o (Vis-ão-ionário jornalista) Nuno Miguel Guedes. Não se pode dizer que nessas noites não se passa nada em Alcobaça, não é?
ATÉ AO DIA DE NATAL, ESTE BLOGUE PUBLICA POESIA DE NATAL, COMEÇANDO POR UM POEMA DE JORGE FALLORCA
ÉVORAMONTE, 24DEZ74
O natal. O natal é a estação do ano mais bonita. Da que eu gosto mais. No natal tem frio, amizade... Eu gosto muito do natal. No natal tenho medo. O sol é que tem a culpa. Eu não. Nem as flores do natal, assim. Come-se. No natal há: chá bagaço pãozinho quente açorda erva manteiga tambores viski lenha papagaio água vela rádio marrueco alecrim almofada chuva vento ácido tesão gasolina chouriço costela de porco brazinhas a arder flauta pirum (falam) esquentamento sinos no castelo amizade e muito calor. Eu acho que é a estação mais quente do ano. Você acha que não? Também acho que V. acha que não. É a estação do ano mais verde, o natal. A gente fuma fuma fuma à lareira e põe a perna no tesão. À procura da perna. No natal eu sinto uma coisa a roer cá por dentro de tanto amor. Eu gosto muito do natal, das pessoas do natal - eu gosto muito de boa vontade. Aos homes. À lareira na terra.
JORGE FALLORCA
A Luva In Love, 1977
O natal. O natal é a estação do ano mais bonita. Da que eu gosto mais. No natal tem frio, amizade... Eu gosto muito do natal. No natal tenho medo. O sol é que tem a culpa. Eu não. Nem as flores do natal, assim. Come-se. No natal há: chá bagaço pãozinho quente açorda erva manteiga tambores viski lenha papagaio água vela rádio marrueco alecrim almofada chuva vento ácido tesão gasolina chouriço costela de porco brazinhas a arder flauta pirum (falam) esquentamento sinos no castelo amizade e muito calor. Eu acho que é a estação mais quente do ano. Você acha que não? Também acho que V. acha que não. É a estação do ano mais verde, o natal. A gente fuma fuma fuma à lareira e põe a perna no tesão. À procura da perna. No natal eu sinto uma coisa a roer cá por dentro de tanto amor. Eu gosto muito do natal, das pessoas do natal - eu gosto muito de boa vontade. Aos homes. À lareira na terra.
JORGE FALLORCA
A Luva In Love, 1977
Tuesday, December 19, 2006
CENTRO CULTURAL DE BELÉM JÁ ANUNCIA UM NOTÁVEL ESPECTÁCULO DA COREÓGRAFA SASHA WALTZ EM MARÇO DE 2007!
Ainda não acabou o ano de 2006 e já se anunciam notáveis espectáculos para 2007 em Portugal. Um desses muito animadores exemplos vem do Centro Cultural de Belém, que já anuncia, para as noites de 2 e 3 de Março de 2007, dois espectáculos cuja figura nuclear será a coreógrafa alemã Sasha Waltz, uma das maiores responsáveis pela afirmação internacional da vertente mais gestual do teatro/dança alemão. Anunciando que esse espectáculo será um aliciante Mergulho na Ópera e um autêntico Mergulho na Dança, o Centro Cultural de Belém alicia-nos para essa actuação em Lisboa de Sasha Waltz & Guests, numa interpretação de Dido & Aeneas de Henry Purcell. E se uma actuação de Sasha Waltz em Lisboa já constituia foros de ser uma das grandes notícias do ano, o que dizer ou escrever quando entre os (seus) convidados que se anunciam se contam o Vocalconsort Berlin e a Akademie Für Alte Musik Berlin, dirigidos por Attilio Cremonesi? Eu, por acaso (ou antes pelo contrário), até estou convicto de que (já) posso dizer e escrever que promete mesmo ser o notável espectáculo que já se anuncia!
Monday, December 18, 2006
EDITORIAL CAMINHO E RDP/ÁFRICA APRESENTAM DOIS NOVOS LIVROS DE JOSÉ LUANDINO VIEIRA
Terça-Feira, 19 de Dezembro, às 18 e 30, a Editorial Caminho e a RDP/África apresentam dois novos livros do romancista angolano José Luandino Vieira: De Rios Velhos e Guerrilheiros-O Livro dos Rios e A Guerra dos Fazedores de Chuva Com os Fazedores de Nuvens (Guerra Para Crianças). A sessão de lançamento terá lugar na sede da Editorial Caminho (Auditório Vítor Branco), situada em Lisboa, no nº 121 da Avenida Almirante Gago Coutinho, sendo a apresentação de ambos os livros da responsabilidade de Ana Paula Tavares. Já se sabe que tudo o que sai da pena de José Luandino Vieira vale mesmo a pena!
Sunday, December 17, 2006
ÀS TERÇAS-FEIRAS COM A CEDECE, A ÚLTIMA DESTE ANO
Terça-Feira, 19 de Dezembro, às 19 horas, no Celeiro do Mosteiro de Alcobaça, iniciar-se-á a última sessão deste ano do ciclo Às Terças-Feiras Com a CeDece, organizado desde Janeiro de 2006 por aquela Companhia de Dança Contemporânea residente em Alcobaça. Essa sessão será subordinada ao tema Bailarinos e a Coreografia, nela sendo apresentadas propostas coreográficas de Joel Bray, Charly Corey, Oded Ronen e Samantha Cotton. Valerá certamente a pena assistir e participar!
VOCÊ, CIBERNAUTA, É A PERSONALIDADE DO ANO PARA A REVISTA NORTE-AMERICANA TIME! JÁ SABIA?
A edição cibernáutica de hoje da revista norte-americana Time (www.time.com) anuncia na sua capa o vencedor da sua escolha como Personalidade do Ano que agora termina. A ilustração dessa capa é um computador, cujo monitor, em cinzento claro, abre espaço para colocação de uma fotografia da Personalidade do Ano 2006 escolhida pela redacção da Time: You, ou melhor escrevendo Você (ou todos nós), cibernauta(s), pela sua (ou nossa) anónima e persistente influência na era global da informação. Você é mesmo a Personalidade do Ano 2006 para a Time, que desse modo distingue e aclama a importância dos internautas ou cibernautas que criam e utilizam a Internet nesta hora de fundar e estruturar a nova democracia digital. Você, caro internauta que diariamente visita, discute e comenta em (milhões de) blogues como este, é a Personalidade do Ano para a Time. Essa sua (lúcida e convincente) vitória será confirmada na edição de 25 de Dezembro da Time da sua (tradicional) versão analógica. Muitos Parabéns!
Thursday, December 14, 2006
REMIX ENSEMBLE (COM SOLISTA ALCOBACENSE MANUEL CAMPOS) ACTUA NO AUDITÓRIO TRÊS DA FUNDAÇÃO GULBENKIAN NO PRÓXIMO SÁBADO
Sábado, 16 de Dezembro, às 19 horas, inicia-se no Auditório Três da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, o Ciclo Remix, integrado na programação da corrente Temporada de Música daquela Fundação. Naquele que será o primeiro de três seus concertos integrados naquela Temporada, o Remix Ensemble dedica esta sua actuação à música culta contemporânea da Hungria e da Rússia dos Anos 1970, actuando sob a direcção do notabilizado maestro Emilio Pomarico, num espectáculo em que actuarão também a soprano Alexandra Moura e o viola Trevor Mctait. Lembrando que um dos solistas do Remix Ensemble é o percussionista alcobacense Manuel Campos informamos que naquele concerto serão interpretadas composições que ilustram diferentes perspectivas sobre o uso do contraponto entre os anos 1970 e o início da década seguinte, de autoria dos notáveis compositores do Século XX: György Ligeti, Sofia Gubaidulina, Edison Denisov e György Kurtag. Uma hora antes do início do concerto, decorrerá no mesmo auditório um comentário pré-concerto proferido pelo compositor contemporâneo português Pedro Amaral. Será certamente mais um excelente concerto, fazendo novamente jus à fama mundial do Remix Ensemble!
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